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08 jun
A volta às aulas na China pós-quarentena pelo relato de uma brasileira

Rebecca Steinhoff, que vive com a família no país, conta como foi a readaptação da escola à nova realidade de distanciamento e higiene

Estudantes fazem distanciamento social ao hastearem a bandeira chinesa na escola, em Taiyuan. A retomada das aulas presenciais no país começou em abril. Foto: China News Service via Getty Images

Moramos na China há seis anos e meio, na cidade de Changzhou, na província de Jiangsu. A cidade tem cerca de 6 milhões de habitantes, fica a 700 quilômetros de Wuhan e a uns 200 quilômetros de Xangai. Ainda assim, é considerada uma cidade de interior. Meu marido, Rafael, trabalha em uma empresa que tem negócios de importação com a China e, como ele passava mais tempo aqui do que no Brasil, decidimos nos mudar para cá com nossas duas filhas no Natal de 2013. Na época, Sarah estava com 5 anos e Valentina com 3.

Hoje, Sarah cursa o quinto ano e Valentina o quarto, em uma escola tradicional chinesa — elas duas são as únicas estrangeiras. A escola fica dentro de um condomínio e é de graça para quem mora lá. Nós pagamos uma taxa equivalente a cerca de R$ 150 por mês por aulas no período integral, das 7 horas às 16 horas. Ao todo, são 2.400 alunos. O ano letivo começou em setembro do ano passado e estava tudo indo muito bem, até a tradicional pausa por causa do Ano-Novo Chinês, quando as pessoas costumam viajar e se deslocar muito. É o principal feriado do país. Até então, em dezembro, não se falava muito sobre o novo coronavírus.

No começo de janeiro, quando os casos começaram a se espalhar, ficamos preocupados e compramos muita comida e máscaras. O álcool já estava em falta. Imediatamente foi decretado lockdown em nossa cidade — estava tudo fechado, apenas farmácia e supermercados abertos. Parecia um apocalipse. Aqui em Changzhou, os condomínios são como prefeituras e têm o poder de ditar normas. O nosso tem três prédios e cerca de 30 casas. Foi proibida a entrada de visitantes e determinado que apenas uma pessoa da família poderia sair para supermercado ou farmácia durante duas horas por dia. Éramos, e ainda somos, obrigados a usar máscara e medir a temperatura antes de sair do condomínio. Recebemos um cartão onde está carimbado o horário que saímos e temos de voltar dentro de duas horas. E medir a temperatura de novo.

Era previsto que as aulas voltassem no meio de fevereiro, mas, em razão da pandemia, foram substituídas por aulas on-line. Ficamos 65 dias em lockdown absoluto. Até que, com o controle dos casos, as medidas extremas foram afrouxando. Meu condomínio, por exemplo, liberou as pessoas para saírem de casa por mais do que duas horas, mas receber visitas está proibido até hoje. Existe um controle intenso da movimentação das pessoas.

Quando nossa cidade zerou o número de novos casos, a vida foi voltando ao novo normal, com restaurantes reabrindo, comércio, lojas, shoppings. Mas, quando recebi o comunicado de que as aulas presenciais seriam retomadas, fiquei tensa, chorei e não queria mandar as meninas para a escola. Cogitamos não mandá-las nos primeiros 15 dias — com a ideia de que, se algo mais sério acontecesse, seria nesse período —, mas depois avaliamos que, se elas não voltassem, isso não seria muito bem-visto pela comunidade e minhas filhas poderiam sofrer algum tipo de bullying, ainda mais por serem estrangeiras. Seria como se nós não confiássemos na segurança da escola. Aqui na China, se a criança falta a um dia de aula, a escola liga para saber a razão.

Com o comunicado de volta às aulas veio uma lista de acessórios de higiene que as crianças precisam levar todos os dias e que eu apelidei de “kit pandemia”: uma toalha de rosto; uma toalha para colocar embaixo da bandeja de comida, pois agora as refeições são feitas na sala de aula; lenço de papel; lenço umedecido; um frasco de álcool em gel; um frasco de álcool em spray; saco de lixo; talheres para o almoço; e máscaras para trocar durante todo o período. As de tecido são proibidas, e os alunos precisam usar os modelos N95 ou a máscara cirúrgica, todas descartáveis.

“Mesmo a escola sendo desinfetada todos os dias, as crianças precisam limpar com álcool sua mesa e cadeira antes de sentar. As salas passaram a ter mesas individuais. Os amiguinhos não podem tirar a máscara nem ter qualquer contato físico entre si”

O rigor com a segurança das crianças começa antes mesmo de sair de casa. Tenho de medir a temperatura das meninas e informar por meio do QR code do aplicativo do colégio. Até 36,9 graus as crianças podem ir para a escola, se der 37 a recomendação é ficar em casa. Antes da pandemia, os pais podiam entrar no condomínio onde fica a escola para deixar as crianças na porta. Agora, não mais — foram organizadas filas do lado de fora, e as crianças entram sozinhas. Antes de entrar, no entanto, elas passam pelo scanner de temperatura corporal para uma nova checagem.

Mesmo a escola sendo desinfetada todos os dias, as crianças precisam limpar com álcool sua mesa e cadeira antes de sentar. As salas com cerca de 45 alunos foram reorganizadas. As mesas eram duplas, agora são separadas e ficam mais distantes umas das outras. Os amiguinhos não podem tirar a máscara nem ter qualquer contato físico entre si. Antes que digam que é um absurdo, as crianças sabem que isso não será para sempre e estão seguindo as novas regras sem estresse.

Durante o dia, a professora volta a medir a temperatura dos alunos — repete isso pelo menos três vezes. Se alguma criança medir mais do que 37,1 ela é retirada da sala até a temperatura baixar. Se chegar a 37,8, ela é encaminhada para o ambulatório da escola. É a professora quem faz a troca das máscaras dos alunos: com luvas, ela retira e descarta a máscara para que a criança não leve as mãos ao rosto. Tudo com muito cuidado. A Sarah já mediu mais do que 37 graus e foi retirada da sala algumas vezes. As aulas de educação física também foram adaptadas — a caminhada substituiu a corrida, pois as crianças não podem correr usando máscara.

Também não podem mais jogar futebol, mas podem pular corda. Nos primeiros dias de volta às aulas, as professoras explicaram tudo sobre o vírus, os riscos, o que está acontecendo aqui e no mundo. E explicaram também o porquê de todo aquele rigor nos procedimentos, a importância de medir a temperatura e o que fazer caso algum colega apresentasse febre. As professoras falaram até mais do que nós contamos para as crianças. E elas chegaram em casa muito tranquilas, sem medo, sem pânico.

Além do rigor dentro da escola, a cada 15 dias nós temos de mandar um relatório para o colégio com os dados da temperatura de todos em casa, se saímos da cidade ou do país, se tivemos contato com alguém infectado, se tivemos algum sintoma. São dezenas de perguntas para que eles tenham total controle do ambiente das crianças. Apesar de meu desespero inicial, elas adoraram voltar para a escola e entenderam que esse controle é necessário. No dia 15 de maio completou um mês do início das aulas dentro desse “novo normal”. Já não estou mais neurótica, me sinto segura e bem mais tranquila.

Por Época 

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