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12 ago
Dissonância cognitiva e a difícil arte de dialogar

Quando a realidade se choca com nossas convicções mais profundas, muitas vezes preferimos recalibrar a realidade a ajustar nossa visão de mundo

Um homem com uma convicção é um homem difícil de mudar. A afirmação é de Leon Festiger, psicólogo americano considerado até hoje uma referência na psicologia social por ter desenvolvido algumas teorias importantes como a da Dissonância Cognitiva. Em seu livro “When prophecy fails“, dos anos 50, Festinger comprovou o apego das pessoas às suas ideias, ainda que a realidade ao seu redor as desafiasse ou mesmo as contradissesse radicalmente. Ainda sobre a convicção do homem, Festinger disse: “Diga a ele que você discorda e ele não irá ouvi-lo. Mostre a ele fatos ou números e ele questionará suas fontes. Apele à lógica e ele não conseguirá entender seu argumento”. O livro mostra como o psicólogo testou sua teoria observando o que ocorreu quando, a partir da visão de uma dona de casa de Chicago (parte de um grupo que estudava a existência de extraterrestres), uma espécie de seita se formou em torno da ideia de que o mundo se acabaria após um dilúvio de proporções catastróficas. Quando a profecia falhou, muitas pessoas continuaram apegadas a ela, procurando argumentos.

A dissonância cognitiva nos rodeia, e poucos estão completamente imunes a ela. Quando a realidade se choca com nossas convicções mais profundas, muitas vezes preferimos recalibrar a realidade a ajustar nossa visão de mundo.  E a tendência, muitas vezes, é nos tornarmos ainda mais rígidos em nossas crenças.

Flexibilizar pontos de vista e posições a respeito dos mais diversos temas é e sempre foi um dos grandes desafios da humanidade. E atualmente, sequer temos paciência ou habilidade para dialogar sobre questões mais polêmicas, especialmente com pessoas que pensam diferente de nós. O desafio todo está em dar um passo atrás e aprender a conversar.

Dialogar com pessoas diferentes põe em cheque as nossas crenças – aquelas que de alguma forma, com o tempo, vão compondo a nossa identidade, como um cobertorzinho quente que nos dá segurança, e do qual não querermos abrir mão ou trocar pelo vazio frio e desconfortável de um ponto de vista menos familiar. Opiniões são compostos complexos, feitos daquilo que somos e aprendemos a acreditar, a partir de vivências, aprendizados, influências. Defender ideias faz parte de defender quem somos no mundo, de certa forma.

Mas o mundo se transforma ao nosso redor. As cenas mudam. Os contextos e as circunstâncias mudam. Muros caem. Distâncias se encurtam. Tecnologias resolvem problemas que pareciam insolúveis. E criam novos problemas. As redes sociais abriram uma conversa intermitente entre as pessoas – escancarando, 24 horas por dia, não só diferenças, mas nossa incapacidade de dialogar.

O estudo “Derrubando muros e construindo pontes: como conversar com quem pensa muito diferente de nós sobre gênero?”, realizado pelo Instituto Avon e pelo PdH Insights, braço de pesquisa do PapodeHomem, escancarou nossa dificuldade na conversa especialmente sobre temas controversos: embora 70% dos brasileiros acreditem que ter conversas sobre temas de gênero com quem pensa muito diferente é positivo, e 50% gostariam de fazê-lo de maneira mais frequente, na prática, apenas 20% buscam ativamente dialogar com quem pensa diferente de si próprio.

Uma das coisas interessantes que a pesquisa demonstrou é que as dificuldades de conversar se devem, em grande medida, ao desgaste de certos termos como diversidade, feminismo e até mesmo gênero – cujo próprio significado está em disputa, segundo Guilherme Valadares, fundador do PapodeHomem e diretor de pesquisa do PdH Insights. Quando uma mesma pergunta é feita sem o uso dessas palavras desgastadas, as abordagens podem ser eficazes especialmente para conversar com quem está fechado a um determinado assunto. Ou seja: a mudança de linguagem pode dobrar as chances de ser escutado, verdadeiramente.

Há estratégias para furar bolhas e superar o fechamento ao diálogo sobre a diversidade. Os pesquisadores da Avon e do PapodeHomem encontraram essas brechas e em cima delas criaram um guia que ensina a dialogar, e que pode ser ótimo aliado para quem quer abrir ou expandir uma abordagem sobre gênero – como as marcas, por exemplo, que vêm se abrindo para o tema e para a ideia de falar sobre isso mais abertamente com as pessoas, assumindo posições em sua comunicação. O guia inclui estratégias bem práticas de conversa, ensina como fazer boas perguntas durante um diálogo para torná-lo mais produtivo – dicas tiradas, por exemplo, do livro Comunicação não violenta, de Marshall Rosemberg.

Segundo o estudo da Avon e do PapodeHomem, 7 em cada 10 pessoas acreditam que dialogar com quem pensa muito diferente é benéfico em alguma medida, cinco em cada 10 afirmam desejar ter mais diálogos assim, e apenas duas em cada 10 buscam ativamente estas conversas. Existe, portanto, o desejo pelo diálogo sobre gênero. E se na prática ele não vem ocorrendo de forma produtiva é, possivelmente, por falta de estratégia. A pesquisa apontou que há apenas 15% das pessoas dialogando sobre gênero com quem pensa diferente (grupo chamado de “Construtores de pontes”), 50% se abrindo e buscando dialogar mais e apenas 35% mais fechadas ao diálogo (chamados “Entre muros”). Isso aponta uma tendência, um caminho e uma oportunidade para furar bolhas.

Publicado por Época Negócios 

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