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Quais as consequências econômicas de uma vacina contra o coronavírus? Três pontos serão cruciais para o mercado

Eficácia, distribuição e velocidade de produção da vacina são questões colocadas no radar para definir ritmo de retomada da economia mundial

9 de setembro de 2020

Por mais que a economia global esteja em uma trajetória de recuperação, sugerindo um recuo menos intenso do Produto Interno Bruto (PIB) do que se pensava no auge dos temores do mercado com a pandemia do coronavírus, há uma visão praticamente estabelecida que apenas com uma vacina ou um remédio muito eficaz contra a Covid-19 pode levar ao retorno pleno de todas as atividades econômicas.

“As medidas de distanciamento social permitem grande flexibilização dos setores, mas esses seguirão crescendo abaixo do potencial sem uma solução definitiva para a doença”, destacou a equipe de análise econômica do Bradesco em análise recente.

Nouriel Roubini, presidente-executivo da Roubini Macro Associates, foi ainda mais longe e, em entrevista à Bloomberg Television, destacou que a forma da recuperação da economia global, que alguns previram ser em formato de “V”, está se tornando um “U” e pode até se tornar um “W” (ou seja, há um risco de recuperação lenta ou mesmo de outra queda ao longo do caminho). A solução para esse cenário não persista, além de estímulos, é justamente uma vacina.

Na mesma linha, Angela Merkel, chanceler da Alemanha (a maior economia da Europa) exortou os cidadãos do país a não baixarem a guarda contra o coronavírus. Relativamente, o país tem conseguido manter número de casos e mortes de covid-19 baixo – contudo, o número de infecções diárias novas vem aumentando desde o início de julho, o que fez Merkel reforçar a avaliação de que a vacina é crucial para a volta à normalidade.

Por isso mesmo, não foi incomum ver que, nos últimos meses, o anúncio sobre o desenvolvimentos de vacinas e de tratamentos contra a Covid-19 mexeu com os mercados. Para citar apenas um exemplo, em meados de julho, a notícia de testes promissores de vacina da Moderna contra o coronavírus foi um dos gatilhos para o Ibovespa subir 1,34% na sessão. A própria ação da Moderna sobe mais de 260% no ano em meio aos avanços com a vacina.

As notícias são promissoras: sete potenciais vacinas contra o coronavírus estão em estágio avançado de testes ao redor do planeta, representando uma esperança no cenário de uma doença que já ceifou a vida de mais de 800 mil pessoas pelo mundo. Apenas depois desta fase é que se pode fazer um registro sanitário.

Enquanto vários especialistas questionaram a provável eficácia da vacina que obteve aprovação regulatória na Rússia durante este mês, outras vacinas estão sendo desenvolvidas separadamente nos Estados Unidos, Europa e Ásia, sendo que a maioria dos especialistas acredita que uma vacina pode estar disponível até o final deste ano ou no primeiro trimestre de 2021.

Assim, a vacina é muito importante para a retomada. Contudo, ainda há muitos desafios no radar após ela ser desenvolvida. É o que aponta Neil Shearing, economista-chefe da Capital Economics, em relatório, em que ressalta: a questão para a volta da economia global à sua plena normalidade não é apenas ter ou não uma vacina.

“A velocidade de desenvolvimento foi notável. Até agora, o tempo mais curto para desenvolver uma vacina contra um novo vírus tinha sido de quatro anos. Agora parece que uma será desenvolvida em 12 meses, o que poderia transformar a batalha contra a Covid-19. Porém, os efeitos econômicos de uma vacina serão governados por três fatores”, avalia o economista.

São eles, I) eficácia, ii) velocidade de produção e ii) distribuição, que estão detalhados abaixo:

1. Eficácia

Sobre o primeiro ponto, Shearing ressalta que nenhuma vacina é 100% eficaz – nos Estados Unidos, por exemplo, o FDA, autoridade sanitária americana, geralmente visa uma taxa de eficácia de cerca de 80%.

Para a vacina SARS-CoV-2, do coronavírus, contudo, a “barra” da eficácia foi reduzida para 50% – refletindo o cronograma comprimido para o desenvolvimento dela por se tratar de uma emergência de saúde e o fato de que muitas vezes leva tempo para que as vacinas revelem sua eficácia.

“Isso deixa na mesa uma grande variedade de resultados potenciais, de uma vacina que é eficaz em um a cada dois casos a uma que é eficaz em quatro a cada cinco casos”, avalia o economista.

Outras questões a serem consideradas incluem a duração da vacina, sua segurança, a disposição das pessoas em usá-la e se ela pode apenas amenizar os sintomas da doença – e não proteger da infecção.  “Permanece uma incerteza significativa em torno de todas essas questões”, avalia o economista da Capital Economics.

2. Velocidade de produção

O segundo fator que determinará os efeitos econômicos de uma vacina é a velocidade com que a vacina poderá ser produzida, avalia Shearing.

“Os números apresentados pelas manchetes são impressionantes: relatórios de desenvolvedores sugerem que perto de um bilhão de doses podem estar disponíveis este ano, com mais sete bilhões em 2021”, aponta o economista.

No entanto, o noticiário se estende sobre vários vacinas e ainda não está claro qual delas terá sucesso ou como a produção será feita. É possível que o número real de doses disponíveis seja significativamente menor. Inicialmente, pelo menos, é provável que o fornecimento seja restringido com base na necessidade, o que torna a imunização em massa um pouco distante.

3. Distribuição

O terceiro e último fator a considerar é a velocidade de distribuição. Há uma dimensão nacional e outra internacional sobre esse tema.

Não é inconcebível que, dada a aceleração da tensão entre EUA e China nos últimos seis meses, fatores geopolíticos possam influenciar na distribuição de uma vacina. “Na prática, suspeitamos que não será esse o caso. Ao invés disso, é mais provável que a distribuição internacional seja influenciada pelo custo de produção”, ressalta o economista.

A maioria das estimativas sugere que a vacina custará cerca de US$ 20 e US$ 50 por dose, colocando a imunização em massa fora do alcance de vários países emergentes mais pobres. Enquanto isso, os países avançados já encomendaram estoques significativos de diferentes vacinas em desenvolvimento.

“É provável que isso produza um processo de imunização global em duas velocidades – com muitos mercados emergentes ficando bem atrás das economias avançadas e contando com o apoio de instituições internacionais e ajuda estrangeira para financiar, distribuir e administrar tratamentos”, avalia.

Além disso, também existem questões de distribuição nacional a serem consideradas. Isso porque, assim como alguns países têm sido mais bem-sucedidos na implantação de procedimentos de teste e rastreamento, alguns provavelmente serão melhores nas campanhas de imunização com a vacina.

Uma série de fatores influenciará nisso, incluindo a qualidade dos sistemas de saúde pública e a capacidade de coordenação em diferentes partes do governo nacional e local. Um desafio chave, pelo menos inicialmente, será identificar e administrar a vacina aos mais necessitados, aponta o economista.

“Consequentemente, faz sentido pensar sobre uma série de resultados de curto prazo relacionados à vacina para as economias. Em uma extremidade do espectro está uma vacina altamente eficaz que é produzida e distribuída rapidamente. No outro, está uma vacina menos eficaz que enfrenta desafios significativos de produção e distribuição e seria relativamente escassa em 2021. Na maioria dos cenários intermediários, é provável que as medidas de contenção, incluindo distanciamento social e restrições a algumas viagens ao exterior, permanecerão em vigor no futuro previsível”, avalia o economista.

Assim, ele reforça que o caminho de volta à normalidade econômica está em erradicar o vírus. O  desenvolvimento de uma vacina será a chave para isso e o progresso em direção a ela tem sido surpreendente. “Da mesma forma, no entanto, seria errado presumir que o desenvolvimento de uma vacina necessariamente transformará as perspectivas econômicas para 2020-2021”, aponta o economista.

Vale destacar que, em relatório trazendo perspectivas para o segundo semestre, o Morgan Stanley havia projetado uma contração de 3,8% da atividade econômica global em 2020 no cenário-base, baixa de 7% no cenário negativo e de 1,4% no cenário positivo. Já para 2021, os cenários seriam, respectivamente, de retomada com alta de 6,1% no caso-base, de 3,5% no cenário negativo e 7% na perspectiva otimista para o PIB global.

Um dos fatores cruciais para esse cenário seria uma vacina o quanto antes sendo que, no cenário-base, ela seria produzida e disponibilizada em larga escala ainda no primeiro semestre de 2021, no mais otimista no quarto trimestre e sendo disponibilizada para os países desenvolvidos e, no mais pessimista, ela sendo disponibilizada apenas em meados de 2022.

Desta forma, além da criação de uma vacina, um ponto destacado como bastante importante para a retomada econômica seria a velocidade de produção e distribuição. Ou seja, a vacina será essencial para a volta das atividades pelo mundo todo – mas outros pontos serão acompanhados de perto para determinar qual será o ritmo da recuperação.

Publicado por InfoMoney

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